sexta-feira, 6 de julho de 2007

AS FINANÇAS E A IGREJA DE NOSSOS DIAS (Parte 2)

A causa mais básica dos problemas que têm ocorrido nesta área revela uma interpretação bíblica tendenciosa e uma teologia falha, que surgiu há várias décadas na América do Norte com o nome de “evangelho da saúde e da riqueza” (health and wealth gospel) e chegou ao Brasil como ‘teologia da prosperidade”. O fundamento dessa ideologia afirma que a obra redentora de Cristo conquistou para os que nEle crêem a vitória sobre todos os tipos de males, resultando em salvação, saúde física e sucesso financeiro. Argumenta-se que os “filhos do Rei, o dono da prata e do ouro (Ag 2.8), devem, por definição, ser prósperos em tudo, citando-se exemplos como Abraão, Daniel e outros personagens bíblicos.Ao mesmo tempo, são convenientemente esquecidos os muitos textos bíblicos que apontam na direção oposta, condenando a preocupação com os bens materiais, alertando para a armadilha espiritual representada pela ganância, bem como destacando o exemplo de Cristo e o discipulado cristão, descrito em termos de humildade,generosidade, altruísmo e serviço ao próximo. Com o pragmático evangelho da prosperidade, muitas igrejas enchem seus templos e seus cofres, mas ao mesmo tempo oferecem pouca nutrição genuína para os seus fiéis e uma mensagem que em nada contribui para a solução dos graves problemas que assolam a vida do país. Por trás do discurso piedoso, essas igrejas tornam-se cada vez mais parecidas com o mundo ao redor. Vivemos, no Brasil de hoje, um dos piores períodos da história. Apesar da relativa estabilidade econômica, o crime e a insegurança atingem níveis sem precedentes; as instituições públicas estão com sua imagem destroçada de modo praticamente irrecuperável em virtude da corrupção e impunidade; o sentimento predominante na sociedade civil é de cinismo, indiferença e perda do idealismo. Nesse ambiente desolador, as igrejas evangélicas e seus líderes podem mostrar que existe algo melhor, que há esperança nos valores e princípios apregoados pela fé cristã. Todavia, em primeiro lugar é necessário que pratiquem os valores bíblicos e cristãos em sua própria casa, vivendo de modo digno do evangelho de Cristo (Fp 1.27). Só assim terão autoridade espiritual, moral e ética para serem instrumentos de transformação.

AS FINANÇAS E A IGREJA DE NOSSOS DIAS

Detive-me a pensar hoje sobre os fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Ao pesquisar na internet encontrei no site do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper um artigo do teólogo Alderi Souza de Matos que, em resumo, elucida bem a questão, no que concordo plenamente. Diz o teólogo que: ao final de novembro de 2006, a justiça de São Paulo decretou a prisão do casal Hernandes. Mas o episódio mais constrangedor ocorreu em 9 de janeiro deste ano, quando eles foram presos por autoridades da imigração em Miami, ao tentarem entrar nos Estados Unidos com 56.000 mil dólares não declarados. A mídia nacional explorou bem a “coisa toda”! Na realidade, tais fatos são apenas os capítulos mais recentes de uma longa história. Há muitos anos esses e outros líderes vêm sendo alertados e censurados quanto ao estilo de vida e à maneira como utilizam os recursos da igreja, as contribuições dos fiéis. Infelizmente, não se trata de um caso isolado. Historicamente, muitos grupos e líderes evangélicos têm enfrentado sérios problemas na sensível área das finanças. Não é sem razão que o dinheiro e seu uso estão entre os temas mais freqüentes da Bíblia. Na maior parte dos textos que falam do assunto, o tom é de grave advertência quanto aos perigos que espreitam nessa área. Paulo nos alerta ao afirmar que os que querem ficar ricos caem em tentação e cilada e que o amor ao dinheiro é raiz de todos os males (1Tm 6.9-10). Existem no ambiente cultural evangélico e pentecostal brasileiro alguns elementos que contribuem para o surgimento desse tipo de problema. A tendência de colocar os líderes eclesiásticos em um pedestal, considerando-os ungidos do Senhor e, portanto, intocáveis, imunes a contestações e críticas, tem sido motivo de inúmeros males para a causa de Cristo. Muitos líderes evangélicos contribuem para esse nefasto culto da personalidade quando alegam possuir virtudes e dons especiais, atribuem a si mesmos títulos grandiosos e condicionam os seus liderados a obedecê-los cegamente, desprezando exortações bíblicas evidentes como 1Pedro 5.1-4. Em alguns casos extremos, essa atitude pode levar a tragédia como a que envolveu o pastor Jim Jones, na Guiana. Uma atitude triunfalista é cultivada nas igrejas evangélicas sempre que os líderes e os membros se consideram tão próximos de Deus, tão abençoados e protegidos por ele, que nada poderá atingi-los. Ela se manifesta em chavões como “eu sou filho do Rei” ou “com o meu Deus eu salto muralhas”. O problema dessa atitude, além da falta de humildade, é a tendência de minimizar os pecados dos crentes, especialmente dos líderes, e de considerar as críticas e reveses que sofrem por causa dos seus erros como provações passageiras ou ataques do inimigo. Com isso, os problemas não são admitidos, tratados e solucionados de maneira bíblica e cristã. No final dos anos 80 um pregador americano muito conhecido, Oral Roberts, afirmou em seu programa de audiência nacional ter recebido uma revelação na qual Deus lhe disse que o levaria para casa (ou seja, ele iria morrer) se não conseguisse levantar oito milhões de dólares para sua escola de medicina. As contribuições choveram de todos os lados e ultrapassaram a meta estabelecida, mas ficou a sensação de que esse líder havia utilizado uma chantagem baixa para conseguir dinheiro. É importante reconhecer que a maior parte das igrejas evangélicas realiza o seu trabalho cristão com seriedade e integridade. No entanto, as práticas financeiras de muitas igrejas e ministérios são uma incógnita, uma caixa preta a que poucos têm acesso.