REFLEXÕES PASTORAIS COM GRAÇA

terça-feira, 15 de junho de 2010

MARTA, MARIA E AS ESCOLHAS: ENTRE SERVIR E ADORAR, O QUE FAZER?

Lc  10.38-42 nos descreve um episódio na caminhada de Jesus e Seus discípulos que nos traz uma excelente oportunidade para aprender sobre SERVIÇO e ADORAÇÃO. O texto bíblico nos fala que Jesus e os discípulos estavam de passagem pelo povoado e são acolhidos por Marta e sua irmã Maria. A mais velha era Marta, daí o fato de que a Bíblia nos conta o episódio e logo no início (v.38) expõe que “certa mulher, chamada Marta, hospedou-o na sua casa”. Então, é certo que possuía Marta um coração generoso e acolhedor. Marta gostava de servir. Durante toda minha caminhada com Cristo ouvi sermões, mensagens e reflexões sobre este momento em que se enaltece a escolha de Maria pela adoração e total atenção dada a Jesus, enquanto se censura a escolha de Marta, pelo seu ativismo. Discordo desta abordagem e proponho, exegeticamente, outra análise, com olhar mais ampliado e completo.
Jesus é hóspede em sua casa. O que você deve fazer?
I – COMO HÓSPEDE ELE PRECISA E DEVE SER SERVIDO
Marta, pois, agiu corretamente quando se dispôs a servir ao hóspede ilustre. O próprio Jesus nos ensina que importa dar de si, dar ao outro, servindo (Mt 20.27,28:”E quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo, tal qual o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos”). Portanto, em Cristo, na essência de Seus ensinamentos, importa servir, não ser servido. Então, entendamos que Marta precisava servir. As tarefas domésticas são muito estafantes e certamente a visita não estava programada, logo, era imperioso limpar, ajeitar coisas, preparar refeição, providenciar água para lavar os pés e as mãos, talvez até para tomar banho, e água era muito escassa. Era preciso administrar bem seu uso. Mas eram visitantes... e hóspedes! Interessante que o início do v.38 descreve uma caminhada de muitos, pois está escrito “indo eles pelo caminho” (eles quem? Certamente Jesus e os discípulos), mas a parte final do versículo afirma que “certa mulher chamada Marta, hospedou-o na sua casa”. E agora? Somente Jesus foi hospedado? Claro que Jesus e todos os Seus discípulos é a resposta certa. Mas um motivo para que todo o empenho da dona de casa fosse feito para tornar a estada de Jesus e dos discípulos aprazível, agradável e reconfortante. A prática judaica da hospitalidade (mas que era comum em todo o mundo antigo) era vista como um dever sagrado e o cristianismo a adotou (Rm 12.13: ”compartilhai as necessidades dos santos, praticai a hospitalidade”) de bom grado, pois era importante como vínculo entre os cristãos, tanto pela proteção que oferecia ao viajante, como pelas oportunidades de companheirismo e estímulo mútuo. E como praticar a hospitalidade se, apenas, recebermos os visitantes e ficarmos na sala conversando, dando-lhes toda a atenção, sendo instruídos, mas sem servi-los? E o serviço doméstico compreende muitas coisas, destacando-se limpeza da casa, providência de água para beber, lavar-se e banho, de toalhas e leitos para descanso, refeições e bebidas. Após todo o serviço, quando tudo parecer perfeito, quando todos os hóspedes manifestarem sua satisfação deve-se recolher tudo, lavando e secando os utensílios usados no serviço. Ufa! É muita coisa e somente quem recebe pessoas em sua casa pode avaliar a situação de Marta, como dona de casa e os cuidados que precisava ter para transformar a estada do Mestre e Seus discípulos, em algo digno de Rei, e mais ainda, do Rei dos reis. Então, não condenamos Marta. Alguém precisa receber bem e ela se dispôs a servir.
Jesus é o Filho de Deus, Senhor e Salvador. O que você deve fazer?
II – COMO SENHOR E SALVADOR ELE DEVE SER ADORADO
Ali, também, encontrava-se o Messias, Emanuel (“Deus conosco”), o Enviado de Deus, Seu Filho, a quem devemos adorar e louvar. E Maria escolheu de pronto a “melhor parte”. Ela, então, agiu corretamente, quando se dispôs a estar aos pés de Jesus e sorver Suas palavras e Seus ensinamentos tão preciosos. Na presença de Jesus, importa-nos adorar. Mas o que é adorar? Adorar envolve a reação religiosa de orar, rogar, homenageando Deus, pois somente Ele é objeto de nossa adoração. Existem atos físicos que exibem adoração: Inclinar a cabeça, curvando-se (Ex 34.8), ajoelhar-se e estender as mãos para os céus (1 Rs 8.54), prostrar-se, rosto em terra (Gn 17.3; Ap 1.17). Mas é preciso entender que há pessoas que por alguma deficiência, temporária ou permanente, não podem assumir estas posturas ou gestos. Então, o que importa é a adoração no coração e na alma. Por isso que essas e outras atitudes, também, emocionais, sendo atitudes da alma, são de adoração. E o são quando homens e mulheres correspondem à graça divina e suas almas são transformadas, porquanto entregaram completamente ao Senhor que adoram.
Então, em resumo: Marta serviu e Maria, prostrada aos pés de Jesus, adorava. Ambas agiram corretamente. Mas, também, erraram. Marta errou quando se incomodou com a falta da irmã que não a estava ajudado nas tarefas domésticas. Não somente se incomodou, mas foi até Jesus e reclamou da irmã perguntando ao hóspede se não estava se importando com o fato de sua irmã estar ali com Ele, e não com ela. E foi mais atrevida, posto que não se dirigiu à irmã, mas ao hóspede, para que ordenasse à Maria que fosse ajudá-la. De pronto Jesus a repreendeu sobre suas inquietudes e preocupações com muitas coisas. Posto que na vida pouco é necessário ou mesmo uma só coisa é necessária: adorar a Deus. Esta boa parte da vida foi, exatamente, a que Maria escolheu e esta não lhe será tirada.
Mas Maria, por seu turno, também errou quando apenas se prostrou aos pés de Jesus para aprender e receber mais do Mestre, ignorando que precisava servir, inclusive ajudando sua irmã nas tarefas domésticas. Servir sem adorar é insuficiente. Adorar sem servir, de igual forma, é insuficiente.  Enquanto estivermos aqui, importa-nos adorar a Deus, sim, mas, amar ao próximo, também. E a manifestação do amor se dá na dimensão do serviço. Logo, não podemos proceder como Marta que apenas servia, e não adorava, nem como Maria que apenas adorava, e não servia. É preciso adorar e servir. Quando estivermos com o Senhor, definitivamente, na eternidade, apenas adoraremos. Lá anjos e servos, incessantemente, apenas adoram. Mas, aqui e agora, importa-nos ADORAR a Deus e AMAR ao outro, na dimensão do serviço que realizamos em prol daquele e daquela que precisa de ajuda. Na Comunidade temos aprendido a Amar a Deus, Adorando-O e a servir ao outro, construindo relacionamentos solidários e eternos (At 2.42-44;4.32 e Rm 2.7). Temos certeza que é do pleno agrado de Jesus Cristo, nosso exemplo maior de servo e adorador! Portanto, não há escolhas a fazer. É preciso tanto SERVIR quanto ADORAR!
Á título de observação complementar: A história seria outra se Maria estivesse, desde o início, ao lado de Marta. Juntas rapidamente fariam o serviço e bem acolheriam o hóspede e seus discípulos. Depois teriam todo o tempo para estarem - juntas - aos pés do Senhor, ouvindo-O, aprendendo e usufruindo de Sua Maravilhosa companhia, enfim, adorando-0, que é a melhor parte. (Reflexão com base em sermão proferido na Comunidade, por este pastor, no culto de domingo 13/06/2010).

domingo, 13 de junho de 2010

"REZOU EM SEPULTURA ERRADA, POR CINCO ANOS, PENSANDO QUE ERA A DO PAI"!

Matéria jornalística divulgada em 12/06/2010 pela Agência Anhanguera de Notícias com o título acima exposto chamou-me a atenção. Eis sua transcrição “ipsis litteris”: O título: Dona de casa reza por 5 anos em sepultura errada.   
O subtítulo: Exumação do corpo foi realizado para confirmar o erro: cemitério acusa família do morto pela confusão.
“Para a dona de casa Maria de Lourdes Semensato, 45 anos, moradora em Campinas, está confirmado: ela rezou por mais de 5 anos pela alma do pai em cima da sepultura errada.Nesta sexta-feira (11/06), o Cemitério Memorial das Flores exumou o corpo enterrado no túmulo 340, onde Ricardo Semensato foi achado. A família reafirma que sempre visitou o jazigo ao lado, onde a placa estaria por engano. A administração do cemitério nega a falha e afirma que o erro foi da família. Lourdes desconfiou que algo estava errado no último dia 30, após um enterro na vala 339. Ela diz que depois disso a placa com o nome de seu pai, que sempre esteve ali, estava no túmulo ao lado, o 340. A exumação ocorreu pra desfazer a confusão. A sepultura 340 foi efetivamente comprada pela família de Lourdes. Lá estavam os restos mortais de Ricardo Semensato. “Isso confirma que rezamos e cuidamos do túmulo errado”, diz. Ela vai atrás da advogada para decidir o que será feito. “Ao menos agora sabemos com certeza onde ir.” 
Tenho o maior respeito pela crença de muitos e, até, pela descrença de tantos. Reconheço, aceito e defendo o fato de que as pessoas devem formar suas opiniões, crenças e valores, de forma livre e soberana. Condeno qualquer manipulação, tentativa de imposição e “lavagem cerebral”. Acredito na força do diálogo e na capacidade racional de pensar, refletir, inferir e tirar conclusões, explícita na percepção que conduz homens e mulheres, de forma sadia e autônoma, a tomarem suas decisões, fazendo escolhas. Entretanto, escolhas geram conseqüências. Muitas são as escolham feitas pelos brasileiros que refletem, até hoje, o processo de colonização portuguesa.Uma das mais marcantes características legadas pelos portugueses se situa no campo da religião. E esse traço tem moldado o jeito de ser, pensar e viver dos brasileiros. Nossos colonizadores eram católicos, brancos e navegadores europeus. Em relação à religião, sendo católicos, deixaram, por herança, os rituais de adoração à imagens, veneração a santos, reza pelos mortos, procissões, novenas e penitências como remissão de pecados. Não pretendo me estender para contestar, biblicamente, cada um desses pontos. O foco, agora, não é este. Chamou-me atenção o inusitado da situação sobre a reza na sepultura errada, e isso por 5 anos!
Mas, vamos à análise que quero proceder.
Em um primeiro momento destaco que, ao não considerar que a alma se separou no corpo, as pessoas se deslocam até o cemitério para rezar pelos mortos. E ali na sepultura, frente ao corpo, que está enterrado, intercedem por sua alma, posto que assim crêem. Por que ir ao cemitério? Ali está, apenas, algo que abrigava o ente querido. O corpo é a parte material, física, de um ser que não mais existe no campo físico. E pelo tempo decorrido – cinco anos – ossos, ossos e cabelos (talvez), nada mais que isso. Definitivamente, ali não está “ele” ou “ela”. Ali não há mais nada! Ali não há alguém. Ali há um corpo em decomposição, ou já totalmente decomposto. Há um corpo sem vida, uma vez que passou para a morte. Mas o que é a morte, afinal?
Em um segundo momento destaco que precisamos saber que a morte é uma separação. Quando o corpo está separado do espírito, ele está morto (Tg 2.26). Ec 12.7 afirma que isto é o que acontece no fim da vida física: "e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu". O que acontece após a morte? É claro que o espírito voltará a Deus, mas o que Ele fará com o espírito? Mesmo que a Bíblia possa não satisfazer toda a curiosidade sobre o que acontece depois da morte, ela é clara ao apresentar diversos ensinamentos:
Deus confortará o fiel e mandará o ímpio para um lugar de tormento (Lc 16.25).
Deus julgará cada pessoa (Hb 9.27).
Este julgamento será de acordo com a palavra que Deus revelou através de Seu Filho (Jo 12.48). Ele julgará as coisas que fizemos em corpo (2 Co 5.10). E mais: Mt 25.31-46 e 2 Ts 1.7-12 mostram claramente que haverá uma eterna separação (morte espiritual) entre os justos (obedientes) e os injustos (desobedientes).
Podemos concluir, então, que a morte eterna não é o fim da existência, mas uma eterna separação de Deus. É óbvio no caso do homem rico, porém desobediente (Lc 16.19-31) que uma pessoa ainda será consciente, mas que o injusto nunca pode atravessar a separação para estar na presença de Deus.
Infelizmente, há muitas doutrinas conflitantes sobre a morte e a eternidade. Exponho, resumidamente, três exemplos de doutrinas humanas que contradizem o ensinamento da Bíblia.
Doutrina humana: A morte é o fim da existência
Quem não acredita na existência de Deus, nega a idéia de vida após a morte. Outros, mesmo entre seguidores de Jesus, ensinam que os injustos deixarão de existir, quando morrerem. Em contraste, Jesus claramente ensinou que a existência não cessa com a morte (Mt 22.31,32). O problema fundamental nesta doutrina humana que diz que a existência cessa com a morte, é o erro de não entender que a morte é uma separação, e não o fim da existência da pessoa (ver Tg 2.26).
Doutrina humana: A reencarnação
Esta doutrina ensina que a alma voltará, possivelmente muitas vezes, para viver novamente e para ser aperfeiçoada em consecutivas vidas. A Bíblia não diz nada para provar esta idéia. Em contraste, a Bíblia ensina que morreremos só uma vez (Hb 9.27,28). Se uma pessoa precisa morrer muitas vezes, qual é o valor do sacrifício de Jesus? Teria Ele também que morrer muitas vezes? Esta referência bíblica ensina que Ele morreu uma vez para pagar o preço de nossos pecados. Atentando para a idéia de que nossas almas são aperfeiçoadas através da reencarnação, observamos que é absolutamente oposta à doutrina Bíblica de que somos salvos pela graça de Deus (Ef 2.8,9).
Doutrina humana: Comunicação com os mortos
A prática do espiritismo, e de outras religiões, ao tentar comunicar-se com os mortos, é absolutamente oposta aos ensinos bíblicos. Quando o homem rico pediu que um mensageiro dos mortos fosse enviado para ensinar sua família, Abraão disse que isso nem era permitido, nem necessário (Lc 16.27-31). No Antigo Testamento, Deus condenou, como abominação, esses esforços para consultar os mortos (Dt 18.9-12). A consulta aos mortos é ligada à idolatria e à feitiçaria, coisas que são sempre condenadas, tanto no Antigo como no Novo Testamento. É sempre errado tentar consultar os mortos. E agora, qual a saída? O cristão autêntico não foge à realidade da morte, mas a enfrenta com confiança no fato de que Cristo conquistou para Ele a vida após a morte – a vida eterna (Jo 11.25). Por último, a Bíblia descreve três tipos distintos de mortes: física, espiritual e eterna.
Morte física. Segundo 2 Sm 14.14: “Porque certamente morremos e seremos como águas derramadas na terra, que não se ajuntam mais...”. O que acontece com o corpo morto quando é sepultado? Depois de alguns dias, terá se desfeito, só restarão ossos e ossos. É isso que a morte física provoca, literalmente.
Morte espiritual. A morte pode ser identificada pela expressão bíblica “morte no pecado”. É um estado de separação da comunhão com Deus. Significa estar debaixo do pecado, sob o seu domínio (Ef 2.1,5). O seu efeito se dá no presente e no futuro. No presente, refere- se a uma condição temporal de quem está separado da vida de Deus (Ef 4.18). No futuro, refere- se ao estado de eterna separação de Deus, o que acontecerá no Juízo Final (Mt 25.46), os injustos para o castigo eterno e os justos para a vida eterna.
Morte eterna. É chamada a segunda morte, porque a primeira é física (Ap 2.11). É identificada como punição do pecado (Rm 6.23). Também  é denominada de castigo eterno. É a eterna separação da presença de Deus – a impossibilidade de arrependimento e perdão (Mt 25.46). Os ímpios, depois de julgados, receberão a punição da rejeição que fizeram à graça de Deus e, serão lançados no Lago de fogo (Ap 20.14,15; Mt 5.22,29,30 ; 23.14,15,33). A morte eterna restringe-se apenas aos ímpios (At 24.15).
Portanto, quando aprendemos mais sobre a morte e nossa relação com Deus, sabemos que o ente querido que morreu, morreu fisicamente, seu corpo é enterrado, mas sua alma, seu espírito, foi para o Senhor – satisfeitas as condições desta reflexão teológica – logo, não faz sentido, tanto ir ao cemitério, quanto orar pelos mortos, posto que quem precisa de oração intercessória são os vivos, que ainda podem se arrepender dos pecados, não os mortos! Se ele morreu, mas não era do Senhor, seu espírito não foi para Ele, logo, de igual forma, nada mais nos resta fazer.
Finalmente, dado o inusitado da situação, uma curiosidade me ocorre. Para quem crê em "ir ao cemitério e rezar pela alma dos mortos", se o corpo não era do pai,  qual a explicação doutrinária para a seguinte dúvida: para quem foi a reza, para o pai, mesmo sendo o corpo decomposto de um outro, ou para o outro, cujo corpo decomposto ali se encontrava, mas que não era objeto da reza?
(Sobre diferenças entre "reza" e "oração" leia postagem no blog Reflexões sob Múltiplos Olhares, também de minha autoria:
http://evandroprprof.blogspot.com/2009/10/ladrao-se-ajoelha-e-reza-antes-de.html )