terça-feira, 26 de março de 2013

VER É ALGO EXTRAORDINÁRIO, PORÉM, DISCERNIR O QUE SE VÊ, É MILAGRE!

Ao lermos um texto é muito importante que atentemos para as diferentes movimentações dos elementos textuais. No capítulo 9 do Evangelho segundo João é destacado o encontro de Jesus com um homem que nascera cego. Iremos, pois, observar os movimentos que aconteceram com o desditoso homem. Ele, um judeu, caminhava às margens de sua religião, pois para si mesmo, para o judaísmo e para todos, ele era um pecador sem perdão, sem passado e sem futuro, que não sabia de onde vinha e para onde ia. Tendo isso em mente, leiamos o texto sagrado, e iremos compreender e discernir o que aconteceu. Os versículos de todo o capítulo são expressivos e nos mostram os passos da cura de um cego de nascença. Primeiro, uma pergunta por parte dos discípulos, sobre a origem da cegueira no homem, se pecado do homem ou de seus pais! Em seguida, o inusitado ritual que Jesus utilizou para curar: cuspiu na terra e aplicou a terra molhada sobre os olhos do cego. E aí instruiu ao homem para que fosse ao tanque de Siloé e se lavasse, e então passaria a ver. Os vizinhos estranharam porque o cego agora via, e quiseram saber como o milagre acontecera. Depois, o homem, que agora via naturalmente, foi levado aos religiosos fariseus, e aquele era um sábado, dia em que não se poderia fazer nada, inclusive um milagre, pois era proibido pela religião. Os religiosos judeus não creram que ele fora cego enquanto não chamaram os pais do que recuperara a vista e lhes perguntaram.
E mais detalhes identificamos no episódio bíblico em que um cego de nascença passar a ver: aquele homem cego, em momento algum, pediu para que Jesus o curasse, mesmo por que não tinha esperança que Jesus pudesse fazê-lo, pois, na história daquele povo, nunca havia acontecido algo igual; além disso, ele aprendera de seus pais que estava pagando pelos pecados de seus ancestrais e o preço era passar toda a sua vida como cego - aqui temos o conformismo, ausência de fé. Mas não nos esqueçamos: o que conta neste relato é a vontade de Deus apontando para Jesus. Ao olharmos atentamente para a caminhada do homem, após o milagre, percebemos em suas respostas uma conversão contínua que inicia com um conformismo mórbido, mas que vai se transformando até o seu ponto máximo, aos pés de Jesus. O episódio descrito no capítulo é muito rico em detalhes. Vejamos mais: tudo está  invertido, os verdadeiros cegos são os fariseus fundamentalistas, e estes pagam pelos erros dos seus ancestrais. O preço da ignorância sempre é pago; mas qualquer um pode impedir a continuação do ciclo vicioso, basta que veja e não mais se repetirá para futuras gerações. Ideias fundamentalistas sempre existiram e são tão perigosas que Jesus afirma que a sua vinda foi para ajudar-nos a discernir, ou seja, para que deixássemos de ser cegos e víssemos. Quando, ignorantemente, ensinamos uma ideia falsa de Deus (que é o mesmo que apresentar falsos deuses),  esse ensino  segue pelas gerações, e é este o castigo, este é o preço. Quando assim procedemos, cegamos as nossas gerações, (cegos guiando cegos). As exatas palavras de Jesus foram: “... para um discernimento é que vim a esse mundo: para que os que não vêem, vejam, e os que vêem, tornem-se cegos” (v.39)
Discernimento significa a ação ou faculdade de discernir, o entendimento e a compreensão de algo. Qual é o critério que você utiliza ao ouvir, sem o menor questionamento, o que um líder religioso afirma?
No entendimento antigo, o que acontecia com o cego era um castigo de Deus. Mas Jesus, diferentemente, nos mostra que este castigo é fruto da falta de discernimento, em aceitar tudo muito passiva e pacatamente.
Não basta confessar Jesus como Senhor e Salvador, sendo este o ensino de um pastor ou do seu líder religioso, se você, apenas, estiver repetindo a lição, sem ter acolhido isso em seu coração. Jesus somente aceita esta confissão se vier de seu coração e se esta for sua maior e melhor escolha.
É preciso ter discernimento. Os fariseus representavam os religiosos, mas o entendimento era equivocado ou seu critério era falso, pois se fundamentava em algo como: “Deus castiga”, “a ira de Deus cairá sobre vocês”, “você paga pelo pecado dos seus pais”, entre muitos outros. No texto, Jesus está nos dizendo que o peso do que cai sobre nós é causa e efeito daquilo que fizemos ou permitimos que fosse feito. Os descasos por parte das autoridades constituídas e os políticos corruptos somente existem e se perpetuam, porque nós permitimos. O apartheid na África do Sul, o holocausto, a corrupção e a impunidade que assola o Brasil, a exclusão social e a miséria que perverte o mundo subdesenvolvido e subnutrido e que provoca o extermínio de milhões de pessoas em todos os países, somente aconteceram e acontecem por que somos omissos! Ignoramos as mazelas que nos cercam e até fingimos que não temos nada com isso!
Seja qual for o estágio de sua caminhada com Cristo, cuide para que ela seja alicerçada no discernimento e continuamente aperfeiçoada e amadurecida. No texto, Jesus está falando dos fariseus que deveriam estar abrindo os olhos do povo para que vejam, mas a verdade é que como líderes tampam os olhos dos seus seguidores. É possível ver – discernir – que todos os demais são cegos, a partir dos pais daquele homem, que tinham medo dos sacerdotes, não viam a verdade, e dos fariseus que não queriam perder a “religião” - o senso cheio de leis e regras, mas obscurecidos para o bem estar das pessoas e "cegas" para o sofrimento e a desgraça alheia, tudo o que conseguem ver é a falha humana, os erros e seus pecados, herdados ou não.
Finalmente, o único que vê é o jovem cego, os outros que se dizem vendo, estão cada vez mais cegos, pois quando se desviam, desviam até os outros do Caminho da Verdade, que é Cristo. Os judeus acreditavam que um miserável tinha esse estado  por ter pecado; um leproso era leproso porque havia pecado; uma pessoa ficava cega por ter pecado! Mas aquele cego era cego de nascença e é por isso que este questionamento era bem pertinente! (Quem pecou foi ele ou os pais dele?). Isso era o que se entendia no judaísmo. Em Cristo, tal doutrina não prevalece! Como não haviam presenciado um cego de nascença recuperar a visão, puderam ver a manifestação das obras de Deus.
Nos dias atuais, os verdadeiros cegos são os que não veem a verdadeira Luz em Jesus; estão cegos desde sempre, pois aprenderam com seus pais que também são.
Ver é tudo de bom, ter a visão boa é algo extraordinário, pelo que devemos dar graças a Deus! Mais importante e que constitui um verdadeiro milagre nos dias atuais é o ato de discernir o que se vê! Pense nisso, e veja! (Reflexão com base em mensagem anunciada na Comunidade, por este pastor, no culto de domingo 24/03/2013).