segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O DEUS QUE NOS GUARDA

A Epístola de Judas, ainda que pequena, tem um conteúdo polêmico, pois revela um forte ânimo do irmão de Tiago em "corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (v.3) alertando contra "...certos indivíduos (que) se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo" (v.4). Portanto, havia ali homens dissimulados que se infiltraram na Igreja e ensinavam doutrinas contrárias aos ensinamentos do Mestre e dos apóstolos. Judas adverte sobre as conseqüências da confusão espiritual e da depravação moral que podiam arrastar pessoas ingênuas. No contexto da época, a região atingida pela heresia gnóstica, que parece ser a principal heresia combatida na carta, entre outras coisas, negando a encarnação de Cristo, era a Ásia Menor. Nossa reflexão se detém em toda a carta, mas especificamente nos v.1-4; 17-25. Os versículos servem de base e estímulo para o propósito da carta e do sermão de hoje. Precisamos entender que:
I - O SENHOR É QUEM NOS GUARDA
O v. 24 nos diz que quem nos guarda é “aquele que é poderoso”. Aquele que é descrito é o Senhor Deus Todo-poderoso, ou seja, Aquele que detêm o mais elevado de todos os poderes, Aquele que tem poder suficiente para nos guardar e fazer as mais difíceis tarefas. Deus é o Deus que tem poder por habilidade e recursos próprios. Seu poder não deriva de nada nem procede de ninguém. No contexto de Judas todo esse poder é direcionado para guardar, proteger. É como segurar algo com toda a força possível. Ele é poderoso para guardar. Na epístola vemos que quando Deus decide guardar algo ou alguém, de fato, ele guarda de maneira poderosa e definitiva. Por exemplo, os anjos que não guardaram seu estado original estão guardados por Deus sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande dia (v.6). Aqui há um paralelismo interessante de Judas: Os anjos não guardaram, então, Deus os guarda! Outro exemplo, os falsos mestres são descritos como estrelas errantes para os quais está guardada a negridão das trevas, para sempre (v.13). Quem os tem guardado de maneira poderosa até hoje e até o grande e terrível dia chegar a fim de fazê-los depósito da ira infinda e eterna? Aquele que é Todo-poderoso! O soberano Senhor guarda os ímpios para o juízo eterno. Sendo o Senhor Deus aquele que guarda, e sendo Ele o todo-poderoso, logo, é Aquele que guarda com todo o poder. No entanto, é também Aquele que sustenta, protege, defende, poupa, previne. Aquele que de uma maneira poderosa nos guarda. E só Ele tem poder para isso. Ninguém mais poderia nos segurar e guardar com tanta segurança. A epístola ainda descreve Deus como Aquele que dá graça (v.4), como o libertador (v.5), como o justo (v.7,14), como aquele que repreende (v.9), como O que ama (v.21), como o único salvador (v.25), mas nenhum destes conceitos nos impacta, neste momento, mais do  descreve Deus como Aquele que guarda até os ímpios para sua condenação. Ora, Aquele que é poderoso é Deus. Deus nos guarda e, como que sendo redundante em propósito, Ele nos guarda de maneira poderosa em Jesus Cristo.
II – O SENHOR NOS GUARDA DE TROPEÇOS
O v. 24 diz que “aquele que é poderoso para vos guardar de tropeços...”. E não é difícil observar quais são os tropeços, os obstáculos que são colocados no caminho daqueles que são guardados em Cristo pelo Senhor Deus Todo-poderoso. A apostasia é o perigo maior. O que aconteceu com Sodoma e Gomorra, o que sobreveio aos anjos desobedientes, ao povo descrente que foi libertado do Egito não aconteceria aos crentes daquela comunidade. Porque Deus era suficientemente poderoso para guardá-los. As doutrinas degradantes dos heréticos não influenciariam os irmãos definitivamente. Tropeço é a disposição pecaminosa de diminuir a obra ou a pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado como se vê na tentativa desse indivíduos ímpios que penetraram sorrateiramente na igreja primitiva. O gnosticismo da época pregava a malignidade total da carne e que se Cristo ou alguma divindade se tornasse figura humana, como foi o caso de Jesus, esse Deus perderia sua essência divina. Isso é um grande tropeço! A NVI não traduz por “guardar de tropeços” mas por “aquele que é poderoso para impedi-los de cair”. A palavra tropeço também é encontrada em Rm 14.13 quando Paulo nos exorta a não servimos de tropeço para o irmão mais novo na fé. Certamente, esta palavra está relacionada ao fazer alguém pecar ou ser como uma pedra no caminho daqueles que querem e estão caminhando. No nosso contexto, o pecado é, de uma maneira geral, a apostasia, a incredulidade, a diminuição da obra e pessoa de Jesus Cristo. Isso é tropeço. Isto faz com que muitos não se aproximem de Deus devidamente. Somos guardados de seguir e ensinar doutrinas que não condizem com a Palavra de Deus.
III - O SENHOR NOS GUARDA PARA UM PROPÓSITO FUTURO
Sabemos que somos guardados em Cristo Jesus pelo Deus Todo-poderoso e que Ele nos guarda da queda, dos tropeços que podem nos afastar de Deus por algum tempo, mas qual a finalidade desta proteção e preservação do todo-poderoso? Por que Ele nos livra das pedras que encontraremos pelos caminhos da vida? Qual a finalidade disso? A finalidade dessa guarda pelo Senhor está claramente expressa no v. 24, “para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória”. Aqui a promessa está relacionada à segunda volta do nosso Senhor Jesus Cristo, onde todos O verão em glória e honra exaltado. A palavra “apresentar” tem o sentido de “estabelecer”, “ficar de pé”, “permanecer ileso”, “continuar íntegro e seguro”, e nos traz a idéia de alguém que não deve nada. É uma postura firme diante de Deus. A ação de Deus guardar os seus está  relacionada a uma apresentação final, última e incomparável diante da glória de Deus, ou melhor, na presença da glória de Deus, do seu eterno esplendor. Extremada alegria sentirá o guardado. Aqui também está contida a idéia de prazer diante de Deus. E este prazer é aquele sentimento que nós tentamos encontrar em coisas vulgares e frívolas, ou em futilidades. Mas lá não! Será lá o lugar que se chama presença de Deus, lá haverá alegria e exultação. Em Lc 1.44 a palavra exultação é usada quando a criança dentro da barriga de Isabel “sente” que sua mãe foi saudada por aquela que tinha em seu ventre o próprio Jesus ainda em formação. O texto diz: “Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro de mim”. Seremos apresentados desta maneira à vista de Deus. Ora, como Deus não vê pecado e diante dEle, não haverá variação nenhuma de mudança e malignidade, entendemos que seremos perfeitos, íntegros em Sua presença. Só um Deus Todo-poderoso pode nos guardar de tropeçarmos e cairmos definitivamente para, no Seu dia, apresentar-nos diante dEle sem mácula, manchas, rugas ou, seja, sem pecado.
RESUMO GERAL:
1. Somos guardados em Cristo
Na epístola está implícita a doutrina da união mística com Cristo, em quem estamos estritamente ligados. Sepultados em Cristo, porém, ressurreto nEle. Isso nos dá uma segurança inabalável porque estamos guardados nEle e se Deus não despreza seu Filho, conseqüentemente não nos desprezará. Se Deus ama seu Filho, também nos amará. Se Deus aceita o louvor que constantemente Seu Filho Lhe dá nos céus, por conseguinte, nEle, Deus aceita o nosso louvor. Se Deus nunca deixará Seu Filho e sempre O guardará, também Deus nos guardará para sempre. Eu e você somos guardados nEle. Cristo é o nosso lugar seguro, por isso devemos nos aproximar cada vez mais através da oração e leitura bíblica. Eu e você jamais seremos abandonados ou deixados ao acaso (cf. Jo 6.37).
2. Estamos cercados pela proteção do Todo-poderoso
O texto traz o conceito da segurança, “guardados em Cristo” e termina com o mesmo conceito, “aquele que é poderoso para nos guardar”. Isso indica que do começo da nossa vida até o final, devemos ter a certeza de que Deus nos cerca com a sua segurança. Deus cerca a nossa igreja das heresias dos dias atuais. Ainda que se levantem falsos profetas, Deus nos guardará. Ainda que se levantem falsos ensinos, Deus nos guardará. Ainda que sejamos sujeitos a tropeços, Deus nos guardará da queda definitiva. Do nascente ao ocaso Deus nos guarda. Do nascimento à morte, Deus nos guarda. Das primeiras palavras balbuciadas até o último suspiro, Deus nos guarda. Do engatinhar ao deitar-se no túmulo, Deus nos guarda. Portanto, saibamos que estar guardado em Deus significa ter a totalidade da vida em Suas mãos.
3. Só Deus é poderoso o suficiente para nos guardar em Cristo
Ninguém é tão poderoso como  Deus. Ninguém é tão poderoso quanto é nosso Deus. Ele está guardando os anjos caídos para a maldição, guardando os infiéis de Sodoma e Gomorra para o julgamento e estes jamais podem ser resgatados. Quando Deus guarda, Ele o faz de verdade.
4. Ele nos guarda de cair definitivamente
Os tropeços vêem, os obstáculos surgem para atrapalhar nossa caminhada. Mas não podemos permitir que isso nos leve à queda. É certo que estamos constantemente sujeitos à queda. Constantemente esquecemos que a graça de Deus e o Seu favor nos mantêm íntegros e em pé. É Sua graça que nos faz levantar toda manhã. É Sua Graça que nos faz deitar toda noite. É Sua guarda que nos impede de cair definitivamente.
5. Seremos considerados perfeitos à vista de Deus
Uma vez aceito o sacrifício de Cristo como forma de expiar nosso pecado, o Espírito Santo imputa em nós a justiça de Cristo e no tribunal de Deus seremos declarados justos e perfeitos diante do Juiz. Todo cuidado que sentimos ter Deus por nós é porque somos Seus filhos adotivos e também porque deseja que fiquemos firmes no Seu grande e terrível dia. Hoje não precisamos mais temer nossos próprios pecados, pois já somos aceitos por Deus. Não devemos viver tendo como referencial o pecado, mas a graça de Deus que superabunda. Você não precisa correr e lutar por auto-imagem porque sua imagem agora é a imagem de Cristo. Você não precisa lutar para ser aceito por pessoas porque já é aceito por Deus. Você não precisa mais lutar por autojustiça, porque sua justiça agora é a justiça de Cristo. Não se engane! Sendo você um eleito, confirmando a cada dia sua eleição, Deus o aceita e o vê pela lente que é Cristo, por isso você perseverará até o fim  e mesmo que na caminhada haja espinho, você perseverará. Mesmo que haja pedra de tropeço você perseverará. Firme-se, pois, nEle.
6. Devemos nos ajudar mutuamente, guardando-nos no amor de Deus
Ainda existem conselhos muito valiosos na pequena epístola de Judas. Há em contraponto à realidade da soberania de Deus, a responsabilidade humana. Judas aconselha que sejamos responsáveis e nos guardemos no amor de Deus. E ele continua (v. 17) que devemos proceder assim: lembrando sempre das palavras dos apóstolos, guardando a Palavra de Deus, orando uns pelos outros no Espírito Santo a fim de sermos fortificados e edificados mutuamente. E mais: devemos arrebatar do fogo (v.23) os que estão na dúvida e odiando o ódio, amando o amor e nos guardando em Deus.
Finalizando, então:
Não confie em seu próprio entendimento ou conhecimento (Pv 3.5). Não confie nos sistemas de seguranças humanos, saiba que o salmo 127, v.1 afirma que o Senhor é a nossa maior segurança: “Se o Senhor não edificar a casa em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela”. Nossa segurança é o Senhor. É Ele quem nos guarda em Cristo. Confie no Senhor, pois é quem nos guarda. Veja que o Salmo 121, v.5-8 assegura: “O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita. De dia não te molestará o sol, nem de noite, a lua. O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre”. Amém!(Reflexão com base em sermão proferido na Comunidade, por este pastor, no culto de domingo 22/08/2010).