domingo, 13 de junho de 2010

"REZOU EM SEPULTURA ERRADA, POR CINCO ANOS, PENSANDO QUE ERA A DO PAI"!

Matéria jornalística divulgada em 12/06/2010 pela Agência Anhanguera de Notícias com o título acima exposto chamou-me a atenção. Eis sua transcrição “ipsis litteris”: O título: Dona de casa reza por 5 anos em sepultura errada.   
O subtítulo: Exumação do corpo foi realizado para confirmar o erro: cemitério acusa família do morto pela confusão.
“Para a dona de casa Maria de Lourdes Semensato, 45 anos, moradora em Campinas, está confirmado: ela rezou por mais de 5 anos pela alma do pai em cima da sepultura errada.Nesta sexta-feira (11/06), o Cemitério Memorial das Flores exumou o corpo enterrado no túmulo 340, onde Ricardo Semensato foi achado. A família reafirma que sempre visitou o jazigo ao lado, onde a placa estaria por engano. A administração do cemitério nega a falha e afirma que o erro foi da família. Lourdes desconfiou que algo estava errado no último dia 30, após um enterro na vala 339. Ela diz que depois disso a placa com o nome de seu pai, que sempre esteve ali, estava no túmulo ao lado, o 340. A exumação ocorreu pra desfazer a confusão. A sepultura 340 foi efetivamente comprada pela família de Lourdes. Lá estavam os restos mortais de Ricardo Semensato. “Isso confirma que rezamos e cuidamos do túmulo errado”, diz. Ela vai atrás da advogada para decidir o que será feito. “Ao menos agora sabemos com certeza onde ir.” 
Tenho o maior respeito pela crença de muitos e, até, pela descrença de tantos. Reconheço, aceito e defendo o fato de que as pessoas devem formar suas opiniões, crenças e valores, de forma livre e soberana. Condeno qualquer manipulação, tentativa de imposição e “lavagem cerebral”. Acredito na força do diálogo e na capacidade racional de pensar, refletir, inferir e tirar conclusões, explícita na percepção que conduz homens e mulheres, de forma sadia e autônoma, a tomarem suas decisões, fazendo escolhas. Entretanto, escolhas geram conseqüências. Muitas são as escolham feitas pelos brasileiros que refletem, até hoje, o processo de colonização portuguesa.Uma das mais marcantes características legadas pelos portugueses se situa no campo da religião. E esse traço tem moldado o jeito de ser, pensar e viver dos brasileiros. Nossos colonizadores eram católicos, brancos e navegadores europeus. Em relação à religião, sendo católicos, deixaram, por herança, os rituais de adoração à imagens, veneração a santos, reza pelos mortos, procissões, novenas e penitências como remissão de pecados. Não pretendo me estender para contestar, biblicamente, cada um desses pontos. O foco, agora, não é este. Chamou-me atenção o inusitado da situação sobre a reza na sepultura errada, e isso por 5 anos!
Mas, vamos à análise que quero proceder.
Em um primeiro momento destaco que, ao não considerar que a alma se separou no corpo, as pessoas se deslocam até o cemitério para rezar pelos mortos. E ali na sepultura, frente ao corpo, que está enterrado, intercedem por sua alma, posto que assim crêem. Por que ir ao cemitério? Ali está, apenas, algo que abrigava o ente querido. O corpo é a parte material, física, de um ser que não mais existe no campo físico. E pelo tempo decorrido – cinco anos – ossos, ossos e cabelos (talvez), nada mais que isso. Definitivamente, ali não está “ele” ou “ela”. Ali não há mais nada! Ali não há alguém. Ali há um corpo em decomposição, ou já totalmente decomposto. Há um corpo sem vida, uma vez que passou para a morte. Mas o que é a morte, afinal?
Em um segundo momento destaco que precisamos saber que a morte é uma separação. Quando o corpo está separado do espírito, ele está morto (Tg 2.26). Ec 12.7 afirma que isto é o que acontece no fim da vida física: "e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu". O que acontece após a morte? É claro que o espírito voltará a Deus, mas o que Ele fará com o espírito? Mesmo que a Bíblia possa não satisfazer toda a curiosidade sobre o que acontece depois da morte, ela é clara ao apresentar diversos ensinamentos:
Deus confortará o fiel e mandará o ímpio para um lugar de tormento (Lc 16.25).
Deus julgará cada pessoa (Hb 9.27).
Este julgamento será de acordo com a palavra que Deus revelou através de Seu Filho (Jo 12.48). Ele julgará as coisas que fizemos em corpo (2 Co 5.10). E mais: Mt 25.31-46 e 2 Ts 1.7-12 mostram claramente que haverá uma eterna separação (morte espiritual) entre os justos (obedientes) e os injustos (desobedientes).
Podemos concluir, então, que a morte eterna não é o fim da existência, mas uma eterna separação de Deus. É óbvio no caso do homem rico, porém desobediente (Lc 16.19-31) que uma pessoa ainda será consciente, mas que o injusto nunca pode atravessar a separação para estar na presença de Deus.
Infelizmente, há muitas doutrinas conflitantes sobre a morte e a eternidade. Exponho, resumidamente, três exemplos de doutrinas humanas que contradizem o ensinamento da Bíblia.
Doutrina humana: A morte é o fim da existência
Quem não acredita na existência de Deus, nega a idéia de vida após a morte. Outros, mesmo entre seguidores de Jesus, ensinam que os injustos deixarão de existir, quando morrerem. Em contraste, Jesus claramente ensinou que a existência não cessa com a morte (Mt 22.31,32). O problema fundamental nesta doutrina humana que diz que a existência cessa com a morte, é o erro de não entender que a morte é uma separação, e não o fim da existência da pessoa (ver Tg 2.26).
Doutrina humana: A reencarnação
Esta doutrina ensina que a alma voltará, possivelmente muitas vezes, para viver novamente e para ser aperfeiçoada em consecutivas vidas. A Bíblia não diz nada para provar esta idéia. Em contraste, a Bíblia ensina que morreremos só uma vez (Hb 9.27,28). Se uma pessoa precisa morrer muitas vezes, qual é o valor do sacrifício de Jesus? Teria Ele também que morrer muitas vezes? Esta referência bíblica ensina que Ele morreu uma vez para pagar o preço de nossos pecados. Atentando para a idéia de que nossas almas são aperfeiçoadas através da reencarnação, observamos que é absolutamente oposta à doutrina Bíblica de que somos salvos pela graça de Deus (Ef 2.8,9).
Doutrina humana: Comunicação com os mortos
A prática do espiritismo, e de outras religiões, ao tentar comunicar-se com os mortos, é absolutamente oposta aos ensinos bíblicos. Quando o homem rico pediu que um mensageiro dos mortos fosse enviado para ensinar sua família, Abraão disse que isso nem era permitido, nem necessário (Lc 16.27-31). No Antigo Testamento, Deus condenou, como abominação, esses esforços para consultar os mortos (Dt 18.9-12). A consulta aos mortos é ligada à idolatria e à feitiçaria, coisas que são sempre condenadas, tanto no Antigo como no Novo Testamento. É sempre errado tentar consultar os mortos. E agora, qual a saída? O cristão autêntico não foge à realidade da morte, mas a enfrenta com confiança no fato de que Cristo conquistou para Ele a vida após a morte – a vida eterna (Jo 11.25). Por último, a Bíblia descreve três tipos distintos de mortes: física, espiritual e eterna.
Morte física. Segundo 2 Sm 14.14: “Porque certamente morremos e seremos como águas derramadas na terra, que não se ajuntam mais...”. O que acontece com o corpo morto quando é sepultado? Depois de alguns dias, terá se desfeito, só restarão ossos e ossos. É isso que a morte física provoca, literalmente.
Morte espiritual. A morte pode ser identificada pela expressão bíblica “morte no pecado”. É um estado de separação da comunhão com Deus. Significa estar debaixo do pecado, sob o seu domínio (Ef 2.1,5). O seu efeito se dá no presente e no futuro. No presente, refere- se a uma condição temporal de quem está separado da vida de Deus (Ef 4.18). No futuro, refere- se ao estado de eterna separação de Deus, o que acontecerá no Juízo Final (Mt 25.46), os injustos para o castigo eterno e os justos para a vida eterna.
Morte eterna. É chamada a segunda morte, porque a primeira é física (Ap 2.11). É identificada como punição do pecado (Rm 6.23). Também  é denominada de castigo eterno. É a eterna separação da presença de Deus – a impossibilidade de arrependimento e perdão (Mt 25.46). Os ímpios, depois de julgados, receberão a punição da rejeição que fizeram à graça de Deus e, serão lançados no Lago de fogo (Ap 20.14,15; Mt 5.22,29,30 ; 23.14,15,33). A morte eterna restringe-se apenas aos ímpios (At 24.15).
Portanto, quando aprendemos mais sobre a morte e nossa relação com Deus, sabemos que o ente querido que morreu, morreu fisicamente, seu corpo é enterrado, mas sua alma, seu espírito, foi para o Senhor – satisfeitas as condições desta reflexão teológica – logo, não faz sentido, tanto ir ao cemitério, quanto orar pelos mortos, posto que quem precisa de oração intercessória são os vivos, que ainda podem se arrepender dos pecados, não os mortos! Se ele morreu, mas não era do Senhor, seu espírito não foi para Ele, logo, de igual forma, nada mais nos resta fazer.
Finalmente, dado o inusitado da situação, uma curiosidade me ocorre. Para quem crê em "ir ao cemitério e rezar pela alma dos mortos", se o corpo não era do pai,  qual a explicação doutrinária para a seguinte dúvida: para quem foi a reza, para o pai, mesmo sendo o corpo decomposto de um outro, ou para o outro, cujo corpo decomposto ali se encontrava, mas que não era objeto da reza?
(Sobre diferenças entre "reza" e "oração" leia postagem no blog Reflexões sob Múltiplos Olhares, também de minha autoria:
http://evandroprprof.blogspot.com/2009/10/ladrao-se-ajoelha-e-reza-antes-de.html )

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