segunda-feira, 15 de agosto de 2011

EM CRISTO NÃO SÃO ACEITAS RAZÕES PARA NEGLIGENCIAR OS TALENTOS E DONS, ASSIM COMO PARA REJEITAR SAMARITANOS E HOMOSSEXUAIS!

Jesus sabia da importância de uma boa ilustração para marcar seus ensinos. Por sua visão educadora, fazia muito uso de parábolas, aplicadas às situações e vivências daquela época. Havia em tudo que Ele ensinava, um forte conteúdo rural, posto que o público–alvo de sua mensagem era constituído por agricultores, ribeirinhos e pequenos produtores judeus. Por isso a linguagem de Jesus está cheia de expressões como sementes, semear, pastor, ovelhas, pescadores, pescar, lançar a rede, peixes, figueira, pão, fermento, sal. Se Ele vivesse hoje, certamente, suas histórias seriam ilustradas de outra forma, posto que mais de 2/3 dos povos vivem em áreas urbanas, com hábitos, costumes e expressões de linguagem totalmente diferentes.
Rubem Alves, teólogo, conferencista e escritor brasileiro reescreve duas das parábolas de Jesus em uma tentativa, bem sucedida, posso assegurar, de atualizar, digamos assim, a linguagem do Mestre:
PRIMEIRA PARÁBOLA: A DOS TALENTOS (Mt 25.14-30) QUE JESUS DESCREVEU, RUBEM ALVES TRANSFORMA, ADAPTANDO-A PARA " O SENHOR DOS JARDINS"
"Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: “O mundo inteiro ainda deverá se transformar num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade. “Suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Era um trabalhão cuidar dos jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insetos, as fontes, as frutas, o perfume... Sozinho ele não daria conta. Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu que ele precisou fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, Paulo, Hermógenes e Boanerges, e lhes disse: “Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero que vocês cuidem de três dos meus jardins. Aos outros já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas... A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores pelas rochas... E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins.“ Ditas essas palavras ele partiu. O Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. O Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas o Boanerges não era jardineiro. Mentira ao se oferecer para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro ele disse: “Cuidar de jardins não é comigo. É trabalho demais...“ Trancou então o jardim com um cadeado e o abandonou. Passados muitos dias voltou o Senhor dos Jardins, ansioso por ver os seus jardins. O Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Veio o Hermógenes e lhe mostrou o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Aí foi a vez do Boanerges. E não havia formas de enganar. “Ah! Senhor! Preciso confessar: não sou jardineiro. Os jardins me dão medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das taturanas, das aranhas. Minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer com a terra, essa coisa suja... Mas o que me assusta mesmo é o fato das plantas estarem sempre se transformando: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim. Se estivesse no meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra seria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras me dão tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguicho e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas o tranquei com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem.“ E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: “Esse jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar desse jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins. E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Você não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Você gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, você irá quebrar pedras na minha pedreira...“
O grande “vilão” da história da parábola dos talentos é o medo. Alguém sabiamente disse que o medo de perder faz perder, e essa ideia é muito clara na mensagem bíblica. É importante que saibamos reconhecer os jardins que estão sob nossa responsabilidade, para, distraidamente, não trancafiá-los alegando que poderia ser dizimado por saqueadores. Na verdade, quando orientamos a vida com medo, tornamo-nos os próprios saqueados dos nossos sonhos. A parábola dos talentos relatada na Bíblia em Mat.25.14-27 fala sobre aquele servo que por não conhecer o seu senhor, guardou os talentos e não conquistou outros tais. Da mesma forma em sua parábola, Rubem Alves mostra que quando demonstramos egoísmo em guardar alguma coisa, é porque verdadeiramente não entendemos o sentido real da vida. Devemos partilhar, granjear e prosperar em todas as nossas atitudes, incluindo, logicamente, todos aqueles que estão a nossa volta. Sábado aprendemos na Escola Bíblica com o filme Em seus passos o que Jesus faria, que em um mundo competitivo devemos, como cristãos, ser mais cooperadores. Na trajetória da vida com Cristo não se pode ter medo das coisas e das pessoas, ou mesmo das circunstâncias, é preciso ser mais generoso, criativo, moderado, porém corajoso, pois não servimos a um Deus de perdas, mas a um Deus de vitória, e  vitória só existe quando há ousadia.
SEGUNDA PARÁBOLA: A DO BOM SAMARITANO (Lc 10. 25-36) QUE JESUS DESCREVEU, RUBEM ALVES TRANSFORMA, ADAPTANDO-A PARA " O BOM TRAVESTI”
"E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?“ E ele lhes contou a seguinte parábola:
"Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: “Vá passando a carteira“. O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão. Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: “Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.“ Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo...“ Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião. Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: “Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!“ O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!“ e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma. Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: “Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.“ Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma. O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido. Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?“ 
A parábola atualizada de Rubem Alves é muito interessante, pois fala na linguagem atual e mostra quanto precisamos deixar de fazer acepção de pessoas, discriminando-as e passando ao largo do problema ou até mesmo nos aproximando, mas procedendo de forma religiosa, com aparente compaixão, mas no íntimo felizes por aquilo não estar acontecendo conosco.
Tão rejeitado quanto o samaritano, ontem, é o homossexual, hoje. Aqui o exemplo de Rubem Alves nos atinge em cheio, pois nos apresenta um travesti. E lemos que alguém totalmente excluído pela sociedade, mas principalmente pelos religiosos, foi quem ajudou o homem ferido. Portanto, ele é o próximo a quem devemos amar. O citado filme Em seus passos o que Jesus faria, retrata, entre outros importantes temas, a chegada de um homem à cidade, um estanho e desconhecido, quase um mendigo, mas que queria simplesmente um emprego, uma atividade, um trabalho remunerado, algo que pudesse ganhar algum dinheiro para se alimentar de forma digna; mas todos, sem exceção, inclusive o pastor, não se envolveram com seu problema, e não ajudam o necessitado. Todos se sentiram aliviados quando o viam se afastar. Mas essa não pode ser nossa postura: afinal, quem é o nosso próximo?
Devemos cuidar dos talentos que o Senhor nos concedeu, como um jardineiro cuida de seu jardim. Transformando e adubando-o para que o Senhor que agracia, fique satisfeito e nos veja como filhos Seus. Devemos amar ao próximo – todos e todas que precisam de carinho, atenção, respeito e amor – mas não pode haver exceção. Jesus impactou Seus ouvintes, ao citar como exemplo de compaixão e amor, um samaritano, alguém que representava tudo o que Israel odiava e rejeitava, na época. Rubem Alves impacta seus leitores, ao citar um travesti como alguém que, movido por nobres sentimentos, somente encontrados em Deus, que é amor (1 Jo 4.7,8), ajuda o homem ferido, ao contrário dos religiosos, o padre, o pastor e o espírita. Reflita sobre isso! (Reflexão com base em sermão proferido na Comunidade, por este pastor, no culto de domingo 14/08/2011).

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