REFLEXÕES PASTORAIS COM GRAÇA

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

À PROPÓSITO DOS LAMENTOS BÍBLICOS SOBRE AS INJUSTIÇAS E OS ABSURDOS DA VIDA


À medida que o autor de Eclesiastes olha em torno de si e de sua vida, examina os empreendimentos humanos e vê o homem em uma corrida desenfreada atrás de uma coisa após outra, em uma luta diária e incessante como se fosse possível dominar o mundo, desvendar seus segredos, mudar suas estruturas fundamentais, romper os grilhões das limitações humanas e ser senhor de seu destino.
O livro de Eclesiastes - que para muitos foi escrito por Salomão, mas outros julgam ser de outro autor, em época posterior à do rei hebreu - avalia o mundo e suas contradições. À partir da perspectiva de seu entendimento, o autor mede o homem e examina sua capacidade, descobrindo que a sabedoria humana, até mesmo a de um homem piedoso, tem limites. Essa sabedoria não consegue descobrir os propósitos de Deus nem a relevância da existência humana.
Em especial, detenho-me no capítulo 4, em que o autor de forma pessimista fala sobre as injustiças sociais e sobre os absurdos de uma vida sem sentido, mas vejo que no capítulo 5, o autor destaca a necessidade de dar sentido a essa vida, a partir da reverência e do temor devidos a Deus. Vamos refletir por partes:
I - AS INJUSTIÇAS DA VIDA:
1) As lágrimas dos oprimidos e a falta de consolo (4.1a):
- existem opressão e injustiça social ao nosso redor. Em verdade, o Brasil é um dos países mais destacados em injustiça social, corrupção aberta e solta, e impunidade. Você consegue vê-las? O que você pensa a respeito? Qual sua posição sobre este tema?
2) O poder nas mãos dos opressores e a falta de consolo (4.1b):
O poder está nas mãos de uma minoria que oprime a ampla maioria da população. Os escândalos campeiam diariamente; em alguns casos há julgamento e sentença, mas é branda em relação à natureza do delito (corrupção e desmando de gestão) ou sequer é mais cobrada, por parte da população desassistida, pela consciência nacional da certeza da impunidade. Como é que se diz, mesmo? – “Tudo acaba em pizza!”
3) Felizes são os mortos mais que os vivos, pois estes (em um mundo mau e sem sentido) ainda têm que viver (4.2):
Neste desabafo, a triste constatação de que melhor situação é a do morto, que nada mais pode ver ou fazer, que a de alguém ainda vivo, pois vai continuar vivendo em meio à todas essas coisas de um mundo mau e sem sentido!
4) Entretanto, melhor do que ambos é aquele que ainda não nasceu, pois não viu o mal que se faz debaixo do sol(4.3):
Que pessimismo, não? Estranha-se que tal afirmação esteja na Bíblia, mas bem retrata o desabafo de um ancião diante das inutilidades e futilidades da vida! Pense sobre isso!
II- OS ABSURDOS DA VIDA:
Para o autor, todo o trabalho e  toda a realização humana surgem da competição que existe entre as pessoas. E conclui que isto também é “absurdo, é correr atrás do vento”  ( 4.4).
Recorrendo a Pv 6.6-11e a Pv 24.30-34 podemos complementar a ideia do autor:
Pv 15.16:” é melhor ter pouco com o temor de Deus do que grande riqueza com inquietação.”
Pv 15.17: “ é melhor ter verduras na refeição onde há amor do que um boi gordo acompanhado de ódio”.
Observe a formiga, preguiçoso, reflita nos caminhos dela e seja sábio; ela não tem nem chefe, nem supervisor, nem governante, e ainda assim armazena as suas provisões no verão e na época da colheita ajunta o seu alimento. Até quando você vai ficar deitado preguiçoso? Quando se levantará do seu sono? Tirando uma soneca, cochilando um pouco, cruzando um pouco os braços para descansar, a sua pobreza o surpreenderá como um assaltante, e a sua necessidade lhe sobreviverá como um homem armado”.
”Passei pelo campo do preguiçoso, pela vinha do homem sem juízo; havia espinheiros por toda parte, o chão estava coberto de ervas daninhas e o muro de pedra estava em ruínas. Observei aquilo e fiquei pensando; olhei e aprendi esta lição: Vou dormir um pouco, você diz. Vou cochilar um momento; vou cruzar os braços e descansar um pouco, mas a pobreza lhe sobrevirá como um assaltante, e a sua miséria como um homem armado”.
Ainda sobre os absurdos, cita o autor uma situação específica sobre UM HOMEM SOLITÁRIO e a inutilidade de sua vida (4.8-12):
        - Um homem solitário – sem família, sem ninguém – trabalha sem parar, mas não se satisfazia com sua riqueza.
        - Por isso melhor é ter companhia do que estar sozinho, melhor é serem dois, do que um. O cordão de três dobras não se rompe com facilidade.
III – AS FUTILIDADES DO PODER (4.13-16):
      -    Melhor é ser jovem pobre, mas sábio do que rei idoso e tolo, que já não aceita repreensão.
      -   O jovem pode até ter saído da prisão e chegado ao trono, ou ter nascido pobre no país daquele rei, mas mesmo assim, o povo seguirá o jovem, o sucessor do rei.
       -    Mas a geração seguinte – quando já for idoso – não ficou contente com o sucessor.
       -    Então isso também não faz muito sentido, é correr atrás do vento.
IV –  O TEMOR DEVIDO A DEUS (5. 1-7)
 Apesar do pessimismo que permeia o livro, há espaço para referências à Deus. Daí os comentários de que devemos ser reverentes no santuário de Deus. E que é melhor ouvir o que Deus tem a dizer do que oferecer sacrifícios sem saber que estão agindo mal. E continua o autor:
     -   Não faça promessas que não possa cumprir. Fale pouco, não seja tolo.
     -   Se fizer um voto cumpra-o sem demora; pois os tolos desagradam a Deus.
     -   É melhor não fazer voto, do que fazer e não cumprir".
V – AS RIQUEZAS NÃO DÃO SENTIDO À VIDA (5. 8-20):
Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente. Por isso, não pode ser verdade que riqueza proporcione sentido à vida. Quem pensa assim, apenas dá sentido existencialista à vida. Ao final, o autor de Eclesiastes conclui o que é óbvio, falta algo para dar o verdadeiro sentido à vida humana. E o que é? Após todo um discurso sobre a inutilidade e a falta de sentido à existência humana (uma visão pessimista extremada) o autor percebe que o que dá sentido à vida é a presença de Deus. Somente Ele pode nos completar e assegurar a plenitude de vida. Essa conclusão não pode ser fruto de algo próprio de religiosidade ou misticismo, somente chega à mente e ao coração do homem quando surge pela experiência pessoal, na busca e na convivência diária com o Eterno.  (Reflexão com base em sermão proferido na Comunidade, por este pastor, no culto de domingo 18/11/2012).

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